A Festa do Raiar da Liberdade

Segundo a tradição oral difundida no quilombo, a primeira festa Raiar da Liberdade teria acontecido na noite de 13 de maio de 1888, quando passageiros provenientes de Cachoeiro de Itapemirim, que passavam pela estação ferroviária de Pacotuba, levaram a notícia. Negros de ganho escravizados, que trabalhavam no entorno da estação, teriam levado a notícia para o quilombo.

 

Nesse dia, Adão, líder fundador do quilombo, teria reunido seus companheiros e anunciado que, a partir daquele dia, eles não precisariam mais se esconder, porque havia “raiado a liberdade”. Para comemorar, eles fizeram uma grande fogueira e festejaram em volta dela com batuques e dança. É nesse momento que teria “surgido” o caxambu e a festa Raiar da Liberdade. É desse dia o jongo – ainda muito difundido até hoje entre os caxambuzeiros, não somente de Monte Alegre, mas também entre outros grupos da região – que diz: “princesa foi-se embora, escreveu no papelão, quem quiser comer, trabalhe com suas mãos.”

 

Quando a notícia chegou às fazendas de café, negros e negras escravizados se recusaram a trabalhar a partir daquele dia. As “negras de dentro”, ou seja, que trabalhavam na casa grande, teriam cantado para suas antigas sinhás: “Sinhá já varri sua cozinha, agora não varro mais!”, e as sinhás imploravam que elas continuassem no seu trabalho, mas elas se recusaram. Esta narrativa é confirmada no vídeo A Festa Raiar da Liberdade.

 

A partir do ano da “libertação”, a festa Raiar da Liberdade teria sido realizada initerruptamente todos os anos, sendo que a mestra Maria Laurinda Adão é responsável pela festa há quase 70 anos, embora existam registros documentais apenas a partir do ano de 2000, quando o evento começou a ser ampliado com o apoio da Associação de Folclore de Cachoeiro (atual Associação de Salvaguarda do Patrimônio Imaterial Cachoeirense).

 

Para a realização da festa, fogueira, tambores e comida são elementos essenciais. A fogueira serve não somente para aquecer as pessoas, mas também para afinar os tambores que, ao serem aquecidos, produzem um melhor som. Além disso, ele não machuca as mãos dos tocadores. Em Monte Alegre, apenas têm a permissão de acender a fogueira a mestra Adevalmira Adão Felipe ou seu filho Edevaldo Adão Felipe, no caso da ausência de sua mãe. Acender a fogueira não é um processo mecânico, é preciso um certo ritual de fé e de respeito pelo elemento fogo. Antes de tudo, a mestra se aproxima da madeira, fica alguns minutos quieta, olhando para a madeira, faz uma oração e, aos poucos, vai colocando fogo no capim e nas folhas da base das madeiras. Estando acesa, ela vai “goivando” o fogo de modo que ele seja mantido sob controle, e, de tempos em tempos, vai verificando a temperatura do couro dos tambores. Eventualmente é necessário passar um pouco de cachaça no couro, para melhorar sua “afinação”. Estando os tambores “afinados”, a roda pode ser iniciada.

 

Para iniciar a roda, a mestra Maria Laurinda coloca a mão sobre os dois tambores e pede licença à Santíssima Trindade:

 

Pai, Filho, Espírito Santo…, Aê, Aê Aê…

Na hora de Deus Amém…, Aê, Aê Aê…

Ô Pai, Filho, Espírito Santo, na hora de Deus Amém…

Ô Pai, Filho, Espírito Santo, na hora de Deus Amém…”.

 

Estando aberta a roda, qualquer integrante que esteja no centro dela pode parar os tambores e tirar um jongo e, a cada novo jongo, a roda recomeça. Não existe tempo determinado para a duração das rodas, mas quem determina a hora de parar é a mestra principal Maria Laurinda. Para encerrar, ela se coloca novamente ao centro da roda, para os tambores com as mãos e tira o jongo de fechamento:

 

“Adeus, adeus, meus filhos eu vou simbora.

Vocês fica com Deus, que eu vou com Nossa Senhora.”

 

É apenas nesse momento que todos os caxambuzeiros podem entrar no centro da roda ao mesmo tempo.

 

Após o encerramento da roda, é servida a feijoada para todos os presentes. A feijoada começa a ser preparada por cerca de 10 mulheres da comunidade, no dia anterior à festa. Normalmente são servidos aproximadamente mil pratos de feijoada por festa.

 

Após o ano de 2000, quando a festa começou a receber outros grupos visitantes, ela se inicia com a apresentação dos grupos visitantes: folias de reis, bate flechas e charola de São Sebastião, capoeiras, quadrilhas, boi pintadinho, entre outros. Somente após as apresentações deles é que se iniciam as apresentações dos grupos de jongo e de caxambus visitantes, para só ao final o grupo local se apresentar. Tudo isso ao lado da fogueira, que dura toda a noite, embora a festa se encerre por volta das 22h.

 Confira as fotos da festa ano a ano.

Em 2024, após análise do Conselho Estadual de Cultura, da Secretaria de Estado da Cultura (Secult), ocorreu o registro e o reconhecimento do Raiar como Patrimônio Cultural Imaterial do Espírito Santo, fruto da construção do  Inventário Nacional de Referências Culturais (metodologia criada pelo IPHAN para a identificação dos patrimônios brasileiros).